Levantamento do CFM mostra que nove estados mais que dobraram a densidade médica desde 2010, com disparidades regionais expressivas.
O Brasil vive um crescimento acelerado no número de médicos, mas esse avanço não tem se traduzido em acesso equilibrado à saúde em todo o território nacional. Levantamento da Demografia Médica do Conselho Federal de Medicina, com dados estadualizados, mostra que a maioria dos estados brasileiros dobrou o número de médicos entre 2010 e 2024, e que nove deles registraram aumento de mais de 100% na densidade médica no período. Apesar disso, o país segue marcado por um contraste expressivo entre capitais, que concentram parcela desproporcional dos profissionais, e o interior, onde a presença médica ainda é escassa em muitas regiões. Para o presidente do CFM, José Hiran Gallo, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas a ampliar o acesso da população à saúde, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
Como está distribuída a força médica no país hoje
Segundo o levantamento do CFM, o Brasil chegou a mais de 575 mil médicos ativos em dados atualizados até o início de 2024, número que coloca o país entre os que mais formam profissionais de medicina no mundo. Desde o início da década de 1990, a quantidade de médicos no Brasil mais que quadruplicou, saindo de pouco mais de 131 mil profissionais para o patamar atual, crescimento impulsionado tanto pela abertura de novas vagas em cursos de medicina quanto pelo aumento da população geral do país.
Regionalmente, o Sudeste concentra a maior densidade e proporção de médicos do país, com cerca de 3,76 médicos por mil habitantes e mais da metade do total de profissionais registrados, enquanto abriga pouco mais de 40% da população brasileira. Já a região Norte apresenta o cenário oposto, com razão de aproximadamente 1,73 médico por mil habitantes, abaixo da média nacional, atendendo a uma fatia da população proporcionalmente maior do que sua representação no total de médicos do país. O Nordeste, o Sul e o Centro-Oeste ficam em posições intermediárias, cada um com particularidades na relação entre número de médicos e tamanho da população local.
As disparidades entre capitais e interior
Um dos achados mais relevantes do estudo é o contraste entre capitais e municípios do interior. As capitais brasileiras concentram cerca de 23% da população do país, mas reúnem em torno de 52% dos médicos registrados, o que resulta em uma razão média de sete médicos por mil habitantes nessas cidades. Os municípios do interior, por outro lado, somam 77% da população nacional e apenas 48% dos profissionais, com razão média de 1,9 médico por mil habitantes, patamar bem inferior ao observado nas capitais.
A desigualdade também aparece dentro dos próprios estados. Vitória, no Espírito Santo, registra a maior densidade médica entre as capitais brasileiras, com 18,7 médicos por mil habitantes, enquanto a média do interior capixaba fica em torno de 2,2. Padrão semelhante se repete no Rio Grande do Sul, onde Porto Alegre soma 11,8 médicos para cada mil habitantes, contra 2,2 no interior gaúcho. Apenas quatro capitais brasileiras, Macapá, Boa Vista, Manaus e Rio Branco, apresentam densidade médica inferior à média observada em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Os caminhos para equilibrar o acesso à saúde
Entre as políticas públicas voltadas a atrair médicos para áreas remotas, o Programa Mais Médicos, criado pela Lei nº 12.871, é apontado por especialistas como a iniciativa de maior alcance até o momento, embora não tenha sido suficiente, isoladamente, para resolver o problema da distribuição desigual. Mais recentemente, o governo tem investido também na contratação de profissionais para a atenção primária em municípios desassistidos, por meio de agências vinculadas ao Ministério da Saúde, com o objetivo de suprir a demanda em regiões onde a escassez de especialistas é mais crítica.
A ampliação de vagas de residência médica em regiões fora do eixo Sudeste também é vista como caminho relevante, já que boa parte dos programas de formação de especialistas ainda está concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Sem uma distribuição mais equilibrada de vagas de residência, tende a ser mais difícil reverter o padrão atual, já que muitos médicos acabam permanecendo para atuar próximos à região onde concluíram sua formação especializada, o que reforça a concentração observada nos grandes centros urbanos.
Os números da Demografia Médica do CFM confirmam que o Brasil não enfrenta, hoje, uma escassez geral de médicos, mas sim um desafio de distribuição desses profissionais pelo território nacional. Enquanto capitais como Vitória e Porto Alegre já superam a média de países desenvolvidos, cidades do interior, principalmente as menores e mais distantes dos grandes centros, seguem com acesso limitado a atendimento médico. Reduzir essa distância exige políticas públicas continuadas, que combinem incentivos para atuação fora dos grandes centros com uma redistribuição mais equilibrada das vagas de formação médica, da graduação à residência, ao longo dos próximos anos.

